Envie este conteúdo por email

Notícias e Publicações

Bancos Centrais e mudanças climáticas: impactos nas políticas econômicas

As questões ambientais, com destaque para mudanças climáticas, são assunto a ser avaliado por Bancos Centrais e órgãos reguladores do sistema financeiro. A razão para isso é lógica e relativamente simples: riscos ambientais são riscos financeiros. Se a estabilidade econômica de um país pode ser afetada, reguladores e supervisores das políticas econômicas devem, necessariamente, incluir a variável climática em suas pautas. 

Há 3 excelentes exemplos que comprovam essa nova realidade: (i) a resposta do Presidente do Conselho de Dirigentes do Banco Central Norte-Americano1 a questionamento feito pelo Senador norte-americano Brian Schatz em 18 de abril, explicando como o Banco Central Norte-Americano usa sua autoridade e seus recursos para preparar instituições financeiras para eventos climáticos severos; (ii) a “carta econômica”2 publicada pelo Banco Central de São Francisco, Califórnia,3 em 25 de março deste ano sobre mudanças climáticas; e (iii) a Rede para tornar o Sistema Financeiro Verde (Network for Greening the Financial System – NGFS) criada de forma voluntária em 2017 e composta atualmente por 36 Bancos Centrais4 para trocar experiências, compartilhar boas práticas, contribuir para o desenvolvimento do gerenciamento de risco ambiental (com destaque para mudanças climáticas) no setor financeiro e para mobilizar linhas de financiamento tradicionais para viabilizar a transição para uma economia sustentável. 

O presidente do Conselho de Dirigentes do Banco Central Norte-Americano afirmou que “no curto prazo, eventos climáticos severos têm potencial para causar sérios danos à vida, devastar economias locais (incluindo instituições financeiras) e afetar a produção econômica nacional e a empregabilidade, ainda que temporariamente”, complementando com avaliação detalhada de como o Conselho analisa eventos climáticos severos em cada uma de suas funções (estabilidade financeira, diretrizes para reguladores e instituições financeiras e sistemas de pagamento e infraestrutura do mercado financeiro). 

Já o Banco Central de São Francisco afirma que “as mudanças climáticas – e os esforços para limitá-la e a ela adaptar-se – terão efeitos cada vez mais importantes na economia dos EUA. Esses efeitos e os riscos a eles associados são assuntos relevantes para o Banco Central no desempenho de seu mandato visando estabilidade financeira e macroeconômica.” 

A NGFS, por sua vez, estruturou suas ações em três linhas de trabalho: supervisão (presidida pelo Banco Central da China), macrofinanças (presidida pelo Banco Central da Inglaterra) e difusão das linhas de financiamento ‘verde’ (presidida pelo Banco Central da Alemanha). Na supervisão, a NGFS está analisando, por exemplo, o uso de avaliações de risco ambiental para medir o impacto financeiro do clima e da variável ambiental, entendendo as barreiras atuais e os desafios dessa ferramenta. Nas macrofinanças, a NGFS está analisando como as mudanças climáticas impactarão a macroeconomia e a estabilidade financeira. Na difusão de linhas de financiamento ‘verde’, a NGFS está analisando o papel dos bancos centrais e reguladores como catalisadores desses produtos.

Esse cenário demonstra que reguladores e supervisores de políticas econômicas no mundo comprovaram que os riscos financeiros derivados de eventos ambientais, sejam eles acidentes ou climáticos, podem impactar negativamente e de forma relevantes suas economias. 

Com relação ao Brasil, o Banco Central ainda não é parte da NGFS, tampouco pronunciou-se sobre mudanças climáticas como variável a ser incorporada em nossas políticas econômicas. 

Mesmo incidentes ambientais relevantes não têm seus efeitos econômicos imediatamente avaliados pelo Conselho de Política Monetária (COPOM): em seu Comunicado de 6 de fevereiro e na Ata da 220ª Reunião5, não há referência à esperada queda na produção de minério de ferro em razão do incidente de Brumadinho, que poderia impactar a projeção do PIB de 2019. Esse incidente só é analisado em março de 2019, no Relatório de Inflação trimestral do Banco Central.6

As ações internacionais dos reguladores e supervisores das políticas econômicas mundiais demonstram que as periódicas discussões científicas e políticas questionando a realidade e os impactos das mudanças climáticas se tornam inócuas, além de demonstrarem, indubitavelmente, que riscos ambientais materializados são um pesadelo financeiro ao país. 

Esperamos que, em breve, nosso Conselho Monetário Nacional e o Banco Central do Brasil incorporem a variável climática em suas agendas, visando preparar e proteger nossa economia. 

 

1  Board of Governors of the Federal Reserve System.
2 FRBSF Economic Letter: https://www.frbsf.org/economic-research/publications/economic-letter/2019/march/climate-change-and-federal-reserve/
3 Federal Reserve Bank of San Francisco.

4 Banca d’Italia, Banco de España, Banco de México, Banco de Portugal, Bank Al Maghrib, Bank of Canada, Bank of England, Bank of Finland, Bank of Greece, Bank Negara Malaysia (Central Bank of Malaysia), Bank of Thailand, Banque centrale du Luxembourg, Banque de France / Autorité de Contrôle Prudentiel et de Résolution (ACPR), Bundesanstalt für Finanzdienstleistungsaufsicht (BaFin), Central Bank of Hungary, Central Bank of Ireland, Danmarks Nationalbank, De Nederlandsche Bank, Deutsche Bundesbank, European Banking Authority, European Central Bank, European Insurance and Occupational Pensions Authority (EIOPA), Finansinspektionen (Swedish FSA), Finanstilsynet (Norwegian FSA), Japan FSA, Monetary Authority of Singapore, National Bank of Belgium, Norges Bank, Oesterreichische Nationalbank, People’s Bank of China, Reserve Bank of Australia, Reserve Bank of New Zealand, Superintendencia Financiera De Colombia, Sveriges Riksbank, Swiss Financial Market Supervisory Authority (FINMA) and Swiss National Bank.
5 Disponíveis em: https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/comunicadoscopom/16675 e https://www.bcb.gov.br/publicacoes/atascopom
6 “[…]A revisão da balança comercial de bens reflete […], bem como os efeitos da tragédia de Brumadinho sobre as exportações de minério de ferro […];” “A redução na projeção para as exportações reflete […], possíveis impactos na exportação de minério de ferro decorrentes da tragédia de Brumadinho”; “O segmento industrial registrou variação de 0,13% (ante 1,78% no trimestre anterior), com destaque para a alta no preço do minério de ferro […].” Páginas 48, 30 e 25, respectivamente. Fonte: https://www.bcb.gov.br/publicacoes/ri