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Sem salário?

"Trabalhei quase dois anos de graça e faria tudo de novo", afirma Sergio Gomes, administrador de empresas paulistano, de 43 anos, sobre o período em que decidiu mudar de carreira. Em 2004, após oito anos atuando na área de controladoria em multinacionais como a americana Merck Sharp & Dohme e a holandesa Philips, Sergio participou de um processo seletivo da gigante do setor de alimentos e bebidas Nestlé e foi selecionado para ocupar uma vaga de nível gerencial com possibilidade de morar no exterior e alavancar sua trajetória profissional. "Porém, uma conversa de 4 horas com um executivo da Nestlé especializado em carreira mudou o percurso da minha vida", afirma. O contrato com a companhia suíça não foi assinado, e Sergio, que ainda atuava como controller para a América Latina na Philips, iniciou um processo de formação em coaching que levaria sete meses para ajudá-lo a se lançar na área de desenvolvimento humano. ''Ao sair da multinacional, fiquei quase dois anos dando aula sobre carreira em instituições públicas de ensino sem receber nenhum centavo em troca, mas adquirindo muita prática para atuar com o desenvolvimento de executivos", afirma. Hoje, com certificações internacionais em coaching, Sergio é sócio da consultoria de transformação organizacional Ockam e da consultoria de desenvolvimento, cultura e carreira Praxis, conduzindo programas de liderança para grandes empresas no México, na Argentina e na Alemanha, além ele ser conselheiro no Instituto CEO do Futuro. "Meu plano era ficar sem remuneração por um ano, mas o prazo se estendeu. Nesse período, a tentação de voltar para a área ele controladoria era forte, pois headhunters continuaram me abordando. Além de um processo de transição estruturado, precisei de muito foco. Seria frustrante voltar", diz.

Ter coragem para enfrentar esse tipo de projeto mudou a vida de Sergio - e propostas para trabalhar sem um salário, apenas com uma ajuda de custo, acabam surgindo com mais intensidade em períodos ele crise. Trabalho sem remuneração ou com valores muito abaixo do efetivo, embora não sejam um padrão em companhias muito estruturadas, não é fato raro no mercado - especialmente em empresas nacionais e ele gestão familiar. Mas existem cuidados para encarar essas situações e ter uma experiência positiva.

O primeiro deles é entender se o momento pessoal requer essa atitude. "A transição de carreira é um dos principais motivos que levam um profissional a aceitar esse tipo de proposta em virtude da falta de experiência na nova área", afirma Ricardo Haag, diretor da Page Personnel, consultoria de recrutamento, de São Paulo. Também pode acontecer nos casos em que o executivo que aceita participar de uma startup, com expectativa ele crescimento ela empresa no futuro, ou quando o profissional percebe que aquela proposta levaria a oportunidades almejadas, como uma possibilidade ele contratação numa nova área ou numa atividade mais alinhada com seus interesses pessoais. Essa decisão costuma se dar com mais frequência em cargos gerenciais, quando há um acúmulo ele conhecimentos que podem contribuir para diversos projetos em troca ele networking, novas habilidades e competências. "É o tipo ele relação que estabelece o resultado como recompensa- e não o dinheiro", afirma Ricardo.

Retroceder para avançar

Se o profissional tem disponibilidade financeira para ficar um período sem ser remunerado e se está diante ele uma proposta ele baixo ou nenhum salário, mas com perspectiva ele crescimento e ele recuperação elos ganhos, aceitar um recuo para avançar no futuro pode ser uma boa ideia. "Trabalhar ele graça em troca ele aprendizados reais traz muito mais vantagens para a carreira elo que um trabalho remunerado que não ensina", diz Denise Delboni, coordenadora ela pós-graduação em administração de recursos humanos ela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), ele São Paulo. No entanto, é importante definir algumas ações com a empresa antes ele colocar o trabalho em prática, tais como: escopo, resultados e tempo ele permanência (que eleve ser ele seis meses a um ano). Ter limites é fundamental.

Para Marcia Tolotti, consultora ela GC-5 Soluções Corporativas, elo Rio ele Janeiro, a validade ele um retrocesso temporário é proporcional aos ganhos posteriores e precisa ser mensurável. "Utilizar uma matriz de decisão pode ser uma boa alternativa para avaliar", afirma. A orientação é colocar no papel os seguintes indicadores atuais e futuros, lado a lado: renda, perspectiva de aumento da renda (em meses), vantagens e desvantagens (no mínimo, três de cada), desafios, oportunidades, tempo comprometido e avanços na carreira (no mínimo, três). "Em geral, os profissionais trocam seu conhecimento, informações e inteligência pelo salário, mas não podemos falar de preço sem pensar no valor real de um trabalho - que deve ser analisado do ponto de vista ela empresa e do profissional", diz Marcia. Se o trabalho tem valor percebido pelo empregador (que não vai pagar nada naquele momento), precisa gerar, ele outra forma, algum valor para o profissional.

Discurso dos impostores

Outro fator a ser considerado ao decidir se vale ou não trabalhar de graça é se a empresa realmente tem algo para dar em troca. "Algumas organizações estão utilizando a atual conjuntura como álibi perverso para explorar profissionais e baratear os serviços", afirma Marcia. Por isso, a proposta ele preço reduzido deve sempre vir acompanhada ele algum valor agregado, e não apenas de promessas bajuladoras, com argumentos elo tipo "você terá visibilidade", "ampliará seu currículo" ou "vai adquirir experiência". "Uma empresa que valoriza o trabalho, mas não pode pagar o preço justo naquele momento, faz proposta clara de perspectivas futuras, além ele muitas vezes dar ganhos paralelos e estabelecer um prazo limite para a proposta inicial."

Assim, é possível diferenciar a oferta de um empreendedor que no momento está sem recurso ela ele um mau caráter. Uma elas clicas para saber se a companhia está agindo corretamente é buscar informações em vários canais sobre o futuro empregador. "Redes sociais e referências que vêm de relacionamentos de confiança, como clientes e fornecedores, são fontes ricas de informações sobre caráter e ética da empresa ou entidade para a qual se pretende investir trabalho e tempo sem cobrar nada", afirma Paulo Weinberger, sócio do Fesap Group, consultoria de recrutamento e de estratégia de capital humano, de São Paulo.

Os riscos também devem entrar na balança. "Ao trabalhar de graça ou por baixa remuneração, o profissional corre o risco de ser desvalorizado pelo contratante, que, em algum momento, pode pensar: se nem ele se valorizou, por que eu o faria?", afirma Marcia. Outras possíveis dificuldades são não conseguir aumentar o ganho financeiro no curto prazo, banalizar o conhecimento que possui ou até mesmo diminuir o preço médio do mercado. Entretanto, nem todos os problemas oriundos desse tipo de relação afetam o profissional. "O risco do trabalho gratuito é muito maior para a empresa do que para o profissional", afirma Luiz Guilherme Migliora, sócio sênior da área de contencioso do escritório Veirano Advogados, do Rio de Janeiro. Para o especialista em direito trabalhista, qualquer serviço que gere valor para a empresa deve ser remunerado. "O indicado, nesses casos excepcionais, é fazer um contrato com prazo determinado, com elementos muito fortes de treinamento e com alguma remuneração, ainda que seja pequena."

A única lei que regulamenta o trabalho sem remuneração no Brasil é a de n" 9.608/1998, que rege o trabalho voluntário e determina uma série de formalidades. "Porém, a entidade tomadora do serviço voluntário não deve ter caráter lucrativo, seja ela pública ou privada", diz Marcelo de Souza Teixeira, sócio do escritório Cleverson Marinho Teixeira Advogados Associados, de Curitiba. Tendo como base as práticas atuais do mercado, Marcelo acredita que a relação entre empregador e empregado evoluiu nos últimos anos e que nem todas as pessoas deveriam ser vistas como trabalhadores que necessitam ela excessiva proteção. "Se um profissional considera que a prestação ele trabalho sem remuneração lhe traz benefícios de outra ordem - que não seja necessariamente a financeira, como o crescimento profissional proporcionado pela experiência-, não deveria haver empecilho. Para isso, nosso ordenamento jurídico deve ser aperfeiçoado, diminuindo o risco de contratação." O importante é pesar se ficar sem um holerite faz diferença para sua carreira no longo prazo - e se precaver ele uma possível exploração.